E seguindo o conselho de uma amiga, voltei a escrever. Por quanto tempo nem deus sabe.
Andei lendo Ensaio Sobre a Cegueira (José Saramago) ultimamente. Já havia assistindo o filme e sempre quis ver como era a estória pelas palavras do Nobel. Não me arrependi, apesar da leitura difícil pelo aparente desconhecimento que Saramago tem do ENTER e do TAB como ferramentas para separar o texto em parágrafos.
Problemas com o Word de lado, é uma das estórias que mais me fez pensar na conduta humana. O que nos torna humanos? O que guia nossas atitudes? Porque temos certos pensamentos? Porque existem tantas pessoas más no mundo?
Bom, como um aplicado estudante de Direito, sempre gostei das aulas de antropologia e filosofia. Em especial, gostei da oposição entre Jean-Jaques Russeau, que acredita que o homem nasce bom, e o que o corrompe é a sociedade, e Thomas Hobbes, meu preferido e defensor do pensamento de que o Homem é o lobo do Homem.
Como deu pra notar, minha predileção pelo pensamento de Hobbes, vou avisando que me aterei à ele. Acredito sim que todo homem ja nasce mau. A maldade é inerente ao ser-humano, rimos da desgraça alheia, usurpamos dos nossos meios de sustento, desejamos ser como os que criticamos, desejamos tomar as atitudes que criticamos.
Acha que falei besteira? Vamos a um teste rapido. Seu chefe é um crápula infeliz que passa o dia a fazer absolutamente nada, te chicoteando para que você não pare de trabalhar um segundo sequer. Qual o pensamento recorrente em sua cabeça:
a) Coitado, ele não sabe o que faz
b) Ele está certo, é patrão e não tem que trabalhar, sou pago pra isso
c) Desgraçado, se eu estivesse no lugar dele... Ah, mas ele ia sentir na pele...
Quem responder A, parabéns, já pe possível criar um livro e uma religião baseados em você. Quem responder a B, bom, vocês tem futuro no ramo de construção de piramides no desérto. Agora quem respondeu a C, é um ser humano normal, vingativo e maléfico.
O homem é uma criatura má, a sociedade e o ambiente só colaboram com a concretização dos atos por eles pensados. Entra aí o porque de eu ter citado o Ensaio Sobre a Cegueira. Nesse livro, vemos os piores sentimentos vindos dos Homens, tudo porque seu ambiente mudou, a cegueira branca os fazem adaptar-se a um novo estilo de vida, que não possui regras, ou pelo menos não possui as regras de um contrato social seguido hoje por nós. E justamente por não haver este contrato social, o âmago humano é exposto.
Estava lendo sobre o Experimento de Zimbargo. Em um breve resumo, ele consistia em criar uma prisão ficticia, recrutar voluntários para serem os prisioneiros e os guardas. O experimento deveria durar duas semanas, contudo teve de ser abortado depois de seis dias, porque a situação fugiu de controle. Os recrutados que representavam os guardas demonstraram um comportamento sédico e autoritário, controlando e punindo os "prisioneiros" com humilhações físicas, mentais e sexuais. Por sua vez os "Prisioneiros" tornaram-se submissos, reclusos e aceitaram tal humilhação vinda da "autoridade" coatora.
O que esse experimento demonstrou? Que o ambiente em que se está libera o lado obscuro que esconde o ser humano. Russeau estava, na minha opinião, equivocado ao achar que o homem nasce bom, mas o ambiente o torna mau. Não, o que ocorre é que o homem nasce mau, mas, contido pelo contrato social, ele reprime sua maldade, evitando tornar-se diferente e excluído. Contudo, colocado em um ambiente onde exibir esta crueldade é o padrão, ele não mais a aprisiona, mostrando toda sua obscuridade.